Mulheres com Asas

Bons Voos.

Categoria: Nunca deixe de voar (Página 1 de 4)

FEITO PLUMA

Tenho caminhado com certa dificuldade. Não falo sobre dificuldade mecânica, de locomoção, porque minhas pernas seguem fortes e vigorosas apesar de um insistente desconforto na panturrilha esquerda, para o qual houve até mesmo a indicação de um procedimento cirúrgico. Desde sempre minhas pernas têm sido o melhor do meu corpo, ainda que eu já tenha me submetido a cirurgias nos dois joelhos, a primeira aos dezenove anos e a segunda lá pelos trinta e sete. Mas, mesmo assim, elas nunca me deixaram na mão. Minhas pernas sempre me permitiram fazer o que eu bem entendesse. Com minhas pernas eu danço, corro, nado, mergulho, monto, faço trilhas e dirijo para qualquer lugar, sem receios ou incômodos. Não posso reclamar.

A caminhada difícil tem sido bem outra. É aquela caminhada da vida, aquela que nos obriga a seguir, mesmo quando você tem vontade de apenas parar e desistir. Em parte, os dias parecem longos e intermináveis. Há uma infindável lista de tarefas a cumprir, de problemas a resolver, de demandas a solucionar. Por outro lado, os dias voam ligeiros como aves de rapina. São rápidos, ágeis e rasantes. São eficientes em capturar as suas presas. Os dias consomem o tempo, a força, o ânimo, a juventude, o vigor. São predadores da nossa própria existência.

À noite, na hora de fechar a janela, eu sempre olho para o céu. Fico procurando por alguma estrela, que raramente vejo, porque as estrelas gostam mesmo é de se esconder por detrás das nuvens. As estrelas aqui na minha cidade são tímidas e fugidias. Dificilmente aparecem para lembrar o quanto o céu é infinito e o quanto elas podem ser lindas apesar de estarem tão distantes de nós. Então eu junto as cortinas e tento me alegrar com o fato de que em poucas horas o sol volta a brilhar.

Falar em brilho do sol nesse contexto é um pouco como figura de linguagem porque a maioria dos dias têm sido bastante cinzentos. Mas não tem problema. Acordar de manhã é sempre estimulante pois a gente, a cada dia, acredita que tudo por ser muito diferente. Mas sejamos honestos. Às vezes os dias podem mesmo ser incríveis, mas, no mais das vezes, os dias são apenas repetições do que foi ontem e ensaios para o que será amanhã. E por isso mesmo a caminhada da vida pode parecer assim, tão tediosa ou extenuante.

Fico pensando que a gente deveria ser feito pluma. Deveria não ter de se preocupar com nada e apenas se deixar levar. Imagine como seria belo sentir a leveza do corpo e da alma, esquecer a força da gravidade que nos afunda, e apenas deixar-se levar. Seria um mundo fluido, volátil, etéreo, incorpóreo. Mas é muito difícil conseguir flutuar. Quando as janelas do quarto se abrem a cada nova manhã, precisamos do peso do controle, da densidade da ação e da materialidade dos impulsos.

Nem mesmo uma ave plumada vive bem sem o dinamismo das suas asas. Ela pode flanar um pouquinho em sua inércia, mas depois de um tempo precisa retomar o ritmo compassado para continuar a equilibrar-se. Tampouco as aves escapam do realismo corpóreo deste universo.

Então ser como pluma é algo que você carrega somente nos seus sonhos, naquelas horas em que você apenas fecha os olhos e imagina a sensação de desapego, de desprendimento, de leveza. São aqueles instantes mágicos, mas fugidios, em que você acredita piamente que é capaz de flutuar. São momentos fugazes que não duram mais do que um piscar de olhos na velocidade das asas de um beija-flor.

Então você se lembra que é necessário fazer as asas vibrarem para manter-se vivo e não cair. Se observar bem, vai se recordar que também no céu é preciso estar atento para desviar dos picos das montanhas, para evitar os precipícios e para fugir das tempestades. A condição de inação não condiz com o mundo real.

Ser como a pluma é para quem já desistiu. Para quem se abandonou. Para quem deixou para trás a si mesmo. É difícil, eu sei. Em mesma sinto essa dor dentro de mim, porque às vezes tudo o que eu queria era entregar-me imóvel a uma rajada de vento. Mas é preciso acordar as suas asas a cada manhã e insistir com elas que devem permanecer em movimento. É preciso treinar-se. Liberdade não é exatamente deixar-se levar. Liberdade é algo muito mais complicado. É ter a certeza de que é preciso esforçar-se para permanecer vivo, mas, ainda assim, amar esse esforço porque ele é sempre um desafio. Liberdade é devotar-se à vida e saber que, em parte, ela própria depende de você. Isso faz de você dono e senhor de si. E esse é o maior dom e poder que um ser alado pode experimentar: ter consciência de suas próprias asas e saber como as pode dominar.

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(extraído de Google imagens)

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LIVRO MULHERES COM ASAS

Um sonho que se realiza! Em 03/12 último, um sábado chuvoso, aconteceu o lançamento do meu livro Mulheres com Asas na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo.

O evento foi um sucesso e foi também a oportunidade de rever tantos amigos queridos.

Mulheres com Asas é um projeto pessoal que se iniciou despretensiosamente no final de 2011 e que hoje conta com milhares de seguidores na página do Facebook.

Trata-se de um projeto sem nenhuma finalidade lucrativa e que tem por objetivo a propagação de valores, o encorajamento e o estímulo a todas as mulheres.

O livro está à venda nas principais livrarias, em lojas físicas e online e também no site da Editora Novo Século.

Bons voos!

Com carinho,

Viviane.

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DE VOLTA AO CASTELO ENCANTADO

Era uma vez uma menina. Ela não era uma princesa. Ela era uma menina comum. Esta menina carregava dentro de si todos os sonhos do mundo. Nestes sonhos, a menina habitava um lindo castelo, rodeado de verdejantes jardins com fontes de águas puras e cristalinas, onde, ao longe, podia-se ouvir o som dos violinos. Passarinhos de todas as cores vinham visitá-la logo cedo em sua janela, convidando-a a correr por entre os bosques fartos e a dançar junto às borboletas azuis. A menina, então, todas as manhãs, levantava-se de sua cama cor-de-rosa, atravessava seu enorme quarto cor-de-rosa e abria as longas cortinas também cor-de-rosa para dar “bom dia” a cada um de seus pequeninos amigos. A família da menina era muito doce, meiga e generosa, mas, mesmo assim, a menina sentia-se muito só. E sentia-se assim não porque a família a negligenciasse, mas sim porque, por mais que se esforçassem, os membros desta família não conseguiam acessar e entender os sonhos desta menina. E por causa disto, então, ela aprendeu, desde muito cedo, que seus sonhos eram só seus e que eles eram capazes de fazê-la muito feliz.

A menina cresceu. Sem que percebesse o tempo passar, muitos dos seus sonhos se realizaram. É claro que ela jamais morou em um castelo. Neste ponto, portanto, nunca deixou de ser aquela menina comum. Em contrapartida, realizou outras tantas coisas, que, como num passe de mágica, quando caiu em si já havia se feito inteira como mulher.

Preencheu sua vida com tarefas, atividades, deveres e ocupações. E nem tudo foi ruim. A par de uma agenda cheia, houve também um tanto de prazer. Fizeram parte desta trajetória casamento, filho, viagens, hobbies, amigos, conquistas materiais, realizações profissionais e reconhecimento. Tudo aconteceu como tinha de acontecer.

Foi então quando, do nada, nestes estalos que simplesmente vêm à mente, a menina percebeu que não era mais uma princesa, mas, sim, que agora havia se transformado em uma mulher e que se achava coroada como a rainha de si mesma, forte, independente e realizada. Neste momento, ficou com um pouco de medo de si. Sentiu temor por tudo quanto a força e o poder podem representar porque eles são capazes de afastar as pessoas daqueles primeiros sonhos da infância, fechando definitivamente os portões daquele castelo.

Esta sensação não foi nada confortável para aquela menina, hoje mulher. Sem maiores explicações, ela passou a lembrar-se dos tempos em que era apenas uma criança e que tinha em si todos os sonhos do mundo. Agora, tudo parecia tão realizado, perfeito e concreto, e, paradoxalmente, tão distante daquele estado de desejo que somente as meninas sonhadoras sabem conhecer.

E, num piscar de olhos, olhos agora marejados, tudo o que a menina ora desejava era estar lá atrás de novo, em seu castelo encantado, esperando a hora de correr com as borboletas azuis.

A vida é engraçada. Busca-se muito e quando se alcança, a gente tem a sensação de que o desejar e que o sonhar são sentimentos mais reais do que o conseguir.

A menina viu-se prisioneira de si e do ciclo da vida, pois bem sabia que não podia caminhar para trás. E, além disso, ela teve de admitir que sequer se lembrava onde havia guardado a chave dos portões do castelo.

Foi um grande e desgastante trabalho desvencilhar-se desta armadilha. Sabia que não podia jogar tudo para o alto para viver um delírio infantil. Por outro lado, era frustrante saber que não mais podia experimentar aquelas sensações das frescas manhãs.

A menina recusou-se a permanecer naquele cativeiro. Haveria de existir uma saída para esse complicado dilema. Foi quando ela, então, decidiu escarafunchar todas as gavetas da sua existência até encontrar seu tesouro precioso. Ela sabia que se descobrisse algo que houvesse deixado para trás poderia ainda retornar a aquele castelo com a chave certa capaz de abrir seu coração. Repassou em sua mente tudo o que desejou e sonhou ao longo de sua jornada. E lembrou-se, então, que algo havia sido abandonado. Foi um sonho interrompido. Por circunstâncias da vida e antes que a cortina se fechasse, a menina deixara de dançar nas pontas de seus pés, em vestidos de tule cor-de-rosa e coroas prateadas.

Ela havia encontrado o segredo. O mistério para sua felicidade finalmente estava desvendado. Com a coragem necessária, ela poderia obter a chave daqueles portões. Preparou-se então para o grande dia em que poderia novamente calçar as suas sapatilhas de cetim. Chorou de dor e de emoção quando as luzes do palco se acenderam e depois se apagaram. O tempo havia passado mas era como se o próprio tempo não existisse. A tristeza foi-se embora. O medo acabou. Os pássaros cantaram. Os jardins floriram. As janelas e os portões finalmente se abriram. E a música, antes ouvida à distância, agora estava dentro dela para sempre e nunca mais pararia de tocar.

E a menina, então, jurou a si mesma que, enquanto vivesse, seria fiel à sua verdade e à sua essência. Jurou que cumpriria todos os seus sonhos. Jurou que nunca mais abandonaria a si. Jurou que sempre voltaria ao castelo. Jurou que desafiaria o tempo e que renasceria na própria eternidade.

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Crédito da Foto: Pinterest

 

 

 

 

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O VOO MAIS BELO QUE EXISTE

Falar de relacionamentos é sempre muito complicado. E mais difícil ainda é falar de não-relacionamentos, porque se tem uma coisa que ainda dói profundamente no coração humano é a solidão aliada à sensação do abandono e do vazio. Não importa como tudo começou ou como tudo acabou. A grande maioria de nós, nessas circunstâncias, experimenta dores muito fortes no peito e na alma.

A intensidade e a duração de uma dor podem variar de pessoa para pessoa. Por razões não enquadráveis em um plano lógico e esperado, há pessoas que em curtíssimo tempo recuperam-se do mal-estar e outras tantas que vivenciam um certo sofrimento ou frustração pelo resto de suas vidas.

Também é possível notar que as reações e condutas perante essas dores são muito pessoais e individualizadas. Há pessoas que, desesperadamente, lutam por um novo amor, na tentativa da reconstrução de um modelo, agora com o acréscimo do alívio que uma faísca de vingança pode temporariamente trazer. Já outras, desistem de trilhar pelo caminho linear da vida e embarcam na loucura de noites e dias sem fim, para repetir, inúmeras vezes, antigas sensações de prazer de uma determinada situação que não pode mais voltar. Por fim, há pessoas que se refugiam na dedicação ao trabalho, ao estudo e ao desenvolvimento pessoal, com o intuito de superaram aquela parte da vida que não deu certo mediante o esforço de serem bem sucedidas nas outras áreas da nossa existência.

É evidente que não há um modelo ou paradigma que seja melhor ou pior. Mas há uma circunstância que me incomoda demais. Ao longo da vida, encontrei centenas de mulheres que me disseram que não se importavam em ter ou não um relacionamento, de ter ou não um filho, de viver ou não uma vida a dois. Destas tantas, algumas me pareceram realmente sinceras, mas devo confessar que foi uma insignificante minoria. Quanto a todas as demais, não pretenderam, em absoluto, mentir para mim ou para ninguém. Mas ficou claro e evidente o esforço que tais mulheres faziam para tentarem convencer a si próprias de que estavam felizes assim. E então, para ratificar as suas próprias conclusões, sempre apresentavam como prova de seu correto posicionamento relatos de casamentos desfeitos, abusos físicos e morais, traições e abandonos. Nunca essas mulheres se referiram aos relacionamentos que, de uma forma ou de outra, eram bem sucedidos.

Respeito todas essas mulheres, mas acho isso um pouco ruim. Não por mim, evidentemente, mas por elas próprias que, nas entrelinhas, revelam o quanto se debelam entre um modelo psicológico e social estabelecido e a sua própria realidade pessoal.

Estive certa vez em consulta com uma terapeuta bastante experiente. Ela pediu, na apresentação, que eu falasse sobre mim. E confesso que foi facílimo relatar todo um histórico de sucesso, de reerguimento profissional, intelectual, financeiro e social. Em meu íntimo, creio que até mesmo minimizei os esforços que precisei fazer para chegar aonde cheguei. Mas não porque eu quisesse me gabar e, sim, porque havia questões que me pareciam infinitamente mais complexas. Quando terminei minha própria biografia, ela então me perguntou porque eu estava ali. Nesta hora, eu apenas baixei meus olhos e disse a ela que tinha vergonha de estar em sua frente porque meu único problema era que eu me sentia sozinha demais. Acrescentei a ela que sabia de pessoas que tinham problemas familiares horríveis, doenças incuráveis, limitações de toda espécie e que haviam vivenciado perdas irrecuperáveis. E esclareci que me parecia que estar ali por conta da mera solidão era um pouco fútil e desarrazoado. Naquele momento, não chorei de tristeza, mas, sim, de vergonha.

Foi quando então esta médica, muito gentil e compassiva, me contou uma história surpreendente. Ela havia trabalhado e estudado sobre os efeitos psicológicos da guerra, sobretudo em mulheres. Contou-me, então, que, ao início de seu trabalho, preparou-se para ouvir relatos de maldades e de abusos infinitos, além de perdas de laços familiares, principalmente com relação a seus próprios filhos. Avançando sobre o tema, porém, ela viu-se supreendida com o fato de que muitas mulheres, de forma clara e consciente, trouxeram a esse mesmo patamar de importância a frustração de jamais terem constituído suas próprias famílias e de não se sentirem amadas. Esta competente profissional, com isso, buscou acalmar-me e esclarecer-me que o sentir-se só não era uma leviandade ou uma futilidade. Antes, era algo relevante a ser validado.

Este episódio mudou minha vida. Na verdade, representou uma imensa libertação, porque, até então, eu me via obrigada a sentir-me feliz e satisfeita e, consequentemente, desautorizada de me sentir triste e de chorar.

Saiba então, minha amiga querida, que, se há algo parecido em você, todos esses sentimentos são válidos e devem ser respeitados por todos, incluindo você mesma. Não se esconda atrás da sombra da negação e nem na penumbra da sublimação. É claro que você deverá buscar sua própria felicidade, do jeito que der, mas nunca partindo de algo que não se mostre como absolutamente autêntico e verdadeiro.

Para aprender algo, é preciso conhecer a si mesma e reconhecer-se no estágio em que efetivamente estiver. Fazendo isso, você poderá ir avançando, com consciência e coerência, até alcançar a próxima etapa. Não é possível enganar-se eternamente.

Você merece, obviamente, buscar a validação de seus sonhos e das suas realizações. Mas, para isso, você deverá percorrer cada etapa até conseguir voar corretamente. E não se faz isto de uma hora para outra. É preciso tempo, esforço e dedicação. É preciso analisar, com sinceridade, o que há dentro de você e onde estão as suas dores. E um dia, quando menos esperar, você estará voando o voo mais belo que existe. Um voo conseguido com suas próprias asas e com seus olhos atentos. Um voo sem enganos. Um voo de integridade e da sua própria verdade.

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Foto: Emily Soto

 

 

 

 

 

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MULHERES COM ASAS: NUNCA DEIXEM DE SONHAR.

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AS RAZÕES QUE NINGUÉM VÊ

Muitas pessoas ficam admiradas quando comento que viajo sozinha e consideram isto um ato de coragem da minha parte. Outras tantas, porém, olham-me um pouco intrigadas, o que me permite perceber que, nos esconderijos de suas mentes, estão investigando as razões pelas quais isso acontece. Quando noto esta inquietação, trato logo de explicar e, em questão de segundos, aquilo que parecia um mistério insondável desmistifica-se, pois, na realidade, não há segredo nenhum a ser desvendado.

Meu primeiro voo solo aconteceu em 1996, ano seguinte ao do meu divórcio, durante o período das minhas férias, que começariam logo após o Natal. Como eu pretendia ir ao Canadá, é óbvio que não encontrei nenhuma alma que se dispusesse a viajar comigo para enfrentar o frio de cerca de -30 graus Celsius. É claro que fiquei um pouco temerosa, mas fui, ao estilo sem lenço e sem documento, com um mapa na mão, muitos casacos na mala e nenhuma reserva de hotel. E ali fiquei 35 dias, período em que tive a oportunidade de aprender muitas coisas sobre a vida e sobre os seres humanos.

A primeira grande lição que tive foi a de que há pessoas generosas e solícitas no mundo. Além disso, existe uma empatia natural dos demais turistas quanto aos viajantes solitários, de modo que você só ficará completamente sozinha se for uma pessoa socialmente inviável.

Em segundo lugar, quando você começa a conversar com desconhecidos, estes tendem a remover seus filtros e máscaras, o que permite aferir que suas vidas não são necessariamente melhores do que a sua. Não existe qualquer razão, portanto, para você sentir-se inferiorizada sob nenhum aspecto.

Por fim, não sei se isso é bom ou ruim, mas a verdade é que as pessoas sempre estão ocupadas demais com suas próprias questões para se incomodarem com o fato de que você esteja viajando sozinha ou acompanhada. Isto não faz a menor diferença na vida delas.

Compreendendo, assim, estas três regrinhas de ouro, afastei qualquer sentimento de vergonha, constrangimento ou inadequação, tanto que, após esta primeira experiência, viajei sozinha dezenas de vezes, em circunstâncias muito variadas.

Para finalizar, quero deixar claro que nem sempre viajo sozinha. Evidentemente, quando possível, viajo com meus pais, com meu filho, com meus amigos e, quando estou em algum relacionamento, com meu parceiro. A diferença é que, quando não há ninguém disponível por falta de tempo, de dinheiro, de vontade ou de interesses coincidentes, sigo sozinha da mesma maneira.

Aprendi, com o tempo, a não desperdiçar aquilo que a vida oferece como possível naquele momento. Sendo assim, aproveitar a oportunidade é, talvez, uma resposta única para tantas e tantas perguntas. Sem nenhum mistério. Sem nenhum segredo.

(Texto originariamente publicado em 04/01/12. Foto: Pinterest).

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O DIA EM QUE EU MORDI A MAÇÃ

O namoro ia bem, obrigada. Mas tão bem mesmo que, em dez dias, embarcaríamos juntos a Nova Iorque, onde supostamente seriam compradas as alianças de noivado. Foi quando, então, numa segunda-feira, por volta das 7 horas da manhã, e embasada em suspeitas justificadas, fui espiar um torpedo que acabara de entrar em seu celular, enquanto ele preparava o café. Ele argumentou, ao depois, que eu poderia ter feito tudo, ou pelo menos quase tudo, mas que bisbilhotar nas suas coisas era absolutamente indesculpável e estava fora de questão. E foi assim que acabei sendo expulsa do paraíso. Pretexto ou não, pecado ou não, fui banida para sempre da sua vida e, ali mesmo, encerrou-se uma fase da minha.

Nossa existência é, felizmente, uma sucessão de capítulos até o dia em que o livro acaba de vez. E, como diz o velho ditado, quando uma porta se fecha, outras se abrem. Naquele caso, não havia o que fazer e, mesmo muito aborrecida, segui sozinha para o tão sonhado destino planejado a dois. Mas a viagem, apesar dos “apesares”, como leio por aí, foi boa até demais. Em primeiro lugar, a suíte gigantesca do Waldorf Astoria é capaz de, efetivamente, melhorar o humor de qualquer mortal. Aliás, não me importei nem um pouco de tomar sozinha o champagne que ele havia encomendado quando fez a reserva. Além disso, verdade seja dita, você só não se diverte em Nova Iorque se estiver em um estágio muitíssimo avançado de profunda depressão. E isto é ainda mais verdadeiro se você conhecer o mapa das boas compras.

Sem muita vontade de sair de Manhattan, dediquei-me, com afinco, a escolher, ali mesmo, os melhores endereços para comprar bem e gastar pouco. E agora, com alegria, divido com vocês estas informações. A Macy’s é o óbvio do óbvio, mas sempre vale a visita. Além dos descontos-relâmpago que acontecem em horários variados, você sempre tem garantidos os 11% de desconto com o cupom que você retira no Visitor’s Center. Outra loja que sempre vale a pena visitar é a Century 21, onde os descontos de marcas consagradas podem chegar a 75%. Outra loja que você tem que conhecer é a Burlington Coat Factory, que tem todo tipo de casacos e sobretudos que você imaginar, de marcas desconhecidas a muito famosas. Por fim, uma das minhas lojas queridinhas é a  Filene’s Basement, que, desde novembro de 2011, está em uma espécie de processo de falência. Neste mês, as lojas estão fechadas, mas anote o nome para a eventualidade de elas reabrirem. Por fim, se, entre uma caminhada e outra, você desejar um bom café mas já estiver saturada do Starbucks, vá se deliciar em uma das lojas da Pret a Manger e coma por mim um Almond Croissant.

Amiga, é dispensável dizer que eu não quis nem passar perto da Tiffany, onde as alianças seriam adquiridas, como combinado. Em compensação, passeei por tantos lugares e fiz tantas outras coisas variadas que mal tive tempo de reparar como a vida é mesmo engraçada: mordi a maçã proibida e fui parar sozinha na Big Apple.

(Texto originariamente publicado em 10/02/12. Foto: 7-Themes).

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O QUINTAL DA MINHA CASA

Como moradora da capital paulista, sinto-me privilegiada em poder viajar, uma ou duas vezes por mês, para estar em contato com a exuberante natureza da Mata Atlântica. Meu refúgio fica no litoral norte do Estado, no Município de São Sebastião. A casa é amarela, possui janelas de madeira e a trilha sonora fica por conta dos pássaros e do pica-pau que mora em uma das palmeiras. A animação está a cargo das enormes borboletas azuis que teimam em fazer arrelia em todo o entorno. Se um dia você vier me visitar, será recebido por mim, por minha cachorrinha dálmata e pelo Buda que repousa em meio às orquídeas, no jardim da frente. Mas o ponto alto da minha casa é o quintal. Ele se chama “Praia de Camburizinho” e fica a uma distância de aproximados três quilômetros da minha morada. E é bem ali que passo as manhãs e tardes de sol.

A praia é pequena, tem pouco mais de 300 metros de extensão. O mar é azul e cristalino e a areia é bem branquinha. Nas duas extremidades, há pedras e vegetação nativa, sendo que, no lado direito, está o riozinho que você pode facilmente atravessar para chegar à Praia de Cambury. As duas praias são irmãs, mas não são gêmeas. Enquanto Cambury é bastante frequentada pela moçada e por surfistas, Camburizinho normalmente é muito tranquila e sem nenhuma agitação. A praia tem dois pórticos de entrada que saem da Estrada do Cambury. Se você resolver se acomodar perto de qualquer deles, encontrará várias barracas de bebidas e de petiscos. E, a não se que a praia esteja excepcionalmente lotada, você sempre conseguirá com seus donos um guarda-sol e as cadeiras que precisar. Se você preferir, porém, ter a experência de uma praia praticamente deserta, é só seguir andando para o lado esquerdo e ali esticar sua canga.

Na Estrada do Cambury, na extensão que acompanha a praia, você encontra alguns restaurantes, pousadas, um supermercado, lojas de variedades e boutiques. Se você estiver por lá, vale experimentar uma das saladas e pelo menos um dos doces do Restaurante Framboesa, da simpática Ceres. Não deixe também de visitar o Villa Bebek Hotel, onde você poderá degustar uma deliciosa caipirinha de frutas em um ambiente tipicamente  balinês. Por fim,  entre outras tantas dicas que eu poderia deixar aqui, recomendo que você vá ao Pura Bar. O Pura é para poucos e bons, mas não pelo preço e, sim, por seu charme exclusivo. Ele fica escondido no canto esquerdo da praia e o acesso é pela própria areia. Para sinalizar que o bar está aberto, seu proprietário, o Marcelo, coloca um guarda-sol neon na areia, que é visível da outra ponta da praia. Pronto. É só seguir até lá, subir as escadinhas esculpidas na pedra e deliciar-se com a melhor vista de Camburizinho, ao som de música brasileira de vitrola, como ele faz questão de frisar.

A Praia de Camburizinho tem muitos outros encantos secretos, que vou deixar para você desvendar sozinha. Sendo assim, mesmo que você não tenha tempo para ir até minha casa, não deixe de visitar este meu quintal.  O arquiteto e o paisagista superaram-se na elaboração e execução deste projeto.

(Texto originariamente publicado em 05/01/12. Foto: Amber Bauerle).

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QUANDO A CHUVA CHEGA

Hoje é um sábado chuvoso aqui em São Paulo, daqueles perfeitamente capazes de descrever com precisão por que a cidade é conhecida como “Terra da Garoa”. Olho pela janela e vejo a fina cortina de água descendo por entre as árvores e prédios. E as aves não cantam.

Há dias assim também dentro de nós. Há momentos cinzentos, tristes, melancólicos e quietos. Dias em que a ave que habita a alma simplesmente se recusa a cantar. E a gente não sabe se ela não canta porque não há nenhuma outra fazendo barulho ou se é por falta de vontade ou por ato de rebeldia.

Normalmente gostamos de ficar em nossos ninhos nesses dias nublados. Parece que, diante de tanto silêncio, interior e exterior, formaliza-se um convite ao “entrar em si”.

Quando a gente era criança conhecia de cor o ciclo da chuva e naquela época ninguém parecia se importar quando chegava esta época. Uma vez que você não podia sair de casa para se molhar e pular poças d’água, brincar dentro de casa era a agradável opção disponível. Bolinhos de chuva, corrida de pingo e rabiscos na vidraça eram possibilidades que existiam somente nestes dias.

Depois que a gente cresceu, nunca mais prestou atenção nestes detalhes. Ora, todo mundo sabe que a chuva é um fenômeno meteorológico normal, sem o qual a natureza e a própria vida ficam comprometidas. Sendo assim, a gente não deveria se aborrecer com isso.

Nosso ser também se sujeita a este círculo. Quando as nuvens se tornam densas e pesadas demais, é necessário extravasar. E é neste momento que a precipitação, no sentido climático do termo, finalmente ocorre.

É claro que ninguém gosta de chorar. Acho isto muito normal se você considerar que a maioria das pessoas detesta chuva e nunca se lembra daqueles desenhos que esboçavam o fenômeno hídrico e que eram estudados para as provas de ciências.

Mas assim como gotículas leves ou ruidosas tempestades, as lágrimas também têm uma função muito importante na nossa existência.

Elas higienizam males das mais variadas espécies e, o mais importante, põem sua lavoura para crescer e tornam viçosos os brotos do seu plantio.

As lágrimas são intrincadas e, de uma certa forma, muito mais intrigantes e misteriosas que as gotinhas que vejo escorrer junto ao vidro opaco.

Por uma infinidade de diferentes razões elas eclodem no nosso mundo, não necessariamente obedecendo às regras das estações do ano e às etapas do nosso crescimento. E veja só que curioso: o choro foi a manifestação que você escolheu para o primeiro instante do seu nascimento. E assim também será quando você estiver prestes a dar o seu último suspiro.

Assim como a chuva equilibra as necessidades dos seres viventes, as lágrimas são o sal da terra que tempera o paladar de uma existência indiferente, apática e insípida.

Agora que a chuva parou, olhe de novo para fora. Examine se ficaram resíduos acumulados na vidraça. Observe mais de perto. Se você não estiver conseguindo enxergar com nitidez o que está do outro lado, as janelas da sua alma podem estar precisando de um polimento especial. Faça uso das suas lágrimas para esta tarefa. E, se necessário, sem moderação.

(Texto originariamente publicado em 13/04/13. Foto: Odissey).

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A ÍNDIA, O ABRAÇO E O CHAVEIRO

A primeira vez que estive na Índia foi há exatos cinco anos, em janeiro de 2007. Embora até então eu jamais tivesse frequentado uma única aula de yoga, juntei-me ao grupo de professores do mestre Marcos Rojo, de São Paulo, pessoa por quem nutro grande estima. Eu soube desta jornada por meio de um cartaz aposto no Templo da Monja Coen, que seguiria em viagem como convidada especial. E, assim, fiquei 32 dias naquele país fantástico, atravessando suas terras de norte a sul e, depois, de sul a norte, por todos os meios de transporte que você puder imaginar. Há tanto, mas tanto mesmo, a contar sobre esta viagem que caberia a criação de um blog inteiro dedicado exclusivamente a ela.

No extremo sudoeste do país, fica o Estado de Kerala, banhado pelo Mar da Arábia. E é ali, numa cidadezinha remota, que se localiza o ashram da guru indiana Amma. Amma não se chama Amma. Nasceu Mātā Amritanandamayī Devi, mas, desde cedo, recebeu o codinome que a notabilizou, e que significa “mãe”. Amma é conhecidíssima naquele país e em toda a Ásia e Europa, principalmente por seus projetos humanitários. Ganhou projeção internacional em 2004, ao doar, sozinha, 23 milhões de dólares às vítimas do Tsunami.

Mas o que torna Amma tão famosa é o fato de que milhões de pessoas vão a seu ashram em busca de seu caloroso abraço. Formam-se filas gigantescas de turistas e de devotos para receber esta verdadeira bênção, que sempre vem acompanhada de uma breve prece de conforto ao pé de seu ouvido.

Para melhor organizar aquela multidão de fiéis, os voluntários dividem as pessoas em grandes grupos que serão chamados em uma suposta ordem cronológica de chegada, que não consegui constatar.

Como havia literalmente milhares de pessoas no ashram naquele dia, perdi de vista meus companheiros e acabei sentando no chão, ao lado de lindas meninas indianas, trajadas com impecáveis uniformes britânicos e bindis reluzentes na testa. Uma delas, com cerca de 14 anos, pegou em minha mão e admirou meu anel de strass em formato de coração. Eu estava usando um par de brincos semelhante. E não pensei duas vezes em tirar todas aquelas bijuterias e entregar à simpática garota, que, notoriamente, estava no auge de sua faiscante vaidade adolescente. Ela me agradeceu com um beijo na face.

Cerca de duas horas depois, finalmente chegou minha vez de receber o abraço, que, confesso, muito me emocionou. Impossível não chorar em meio àquela verdadeira catarse.

E, quase em transe, saí do templo à procura dos demais, pois já era quase final da tarde. Depois de mais de uma hora andando de um lado para outro, eu ainda não havia encontrado ninguém, o que me deixou um pouco apreensiva, pois meu hotel, em Cochin, ficava a 140 km ao norte daquele local e não havia transporte público regular.

Qual não foi, então, minha surpresa, quando vi minha nova amiga de olhos amendoados vir correndo em minha direção para me entregar um chaveiro com a foto da Amma, que ela acabara de comprar na lojinha de souvenirs. E, naquele exato momento, ao abraçar a garota, recebi a mais importante lição daquele dia, qual seja o ato de receber, de ser grata, e de dar em retribuição.

O abraço de Amma e suas palavras incompreensíveis foram muito especiais em minha vida. Mas, justiça seja feita, foi aquele chaveirinho que tocou e calou fundo em meu coração, de forma divina e eterna. Obrigada, pequena garota. Não sei seu nome, mas foi por sua causa que voltei à India três anos depois. E  também será em sua homenagem que retornarei tantas vezes quantas forem possíveis àquele santuário de amor.

(Texto originariamente publicado em 02/01/12. Foto: Pinterest).

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